Loading

Fernanda R-Mesquita

fmaria1961@gmail.com

CARTA DESPRETENSIOSA

Faz a tua criança feliz!


Carta despretensiosa? Como pode qualquer assunto de uma mãe para um filho, ser considerado despretensioso? Hoje completaste vinte e oito anos. É uma experiência constante, esta, de sentar na mesa de um café, com um filho que completa vinte e oito anos. Não tão regular, ficar diante de um filho e olhá-lo como um jovem que faz vinte e oito anos. Muitas mães pretendem que os filhos nunca façam vinte e oito anos. Olhamos os traços adultos, como se ainda fossem os infantis, esperando a qualquer momento que salte da cadeira, a criança sorrindo, aberta à vida e de abraços espontâneos. Muitas mães sorriem, ao sentir que os filhos com vinte e oito anos e até mais, muito mais, continuem eternas crianças precisando do colo materno. Por isso, decidi-me a esta carta a tocar a linha que divide o sentimento maternal e a relação entre dois amigos para dar uso amplo à compreensão que atingi, ao vencer camada por camada até chegar a este estado de graça de mãe despretensiosa. A única coisa que me interessou hoje, enquanto sentados na mesa do café, foi que ambos estivéssemos presentes. Algo tão difícil de atingir dentro de casa. Terá a casa, bocas que e gargantas que engolem até a própria respiração? Olhando-te assim, frente a frente, evito que te percas nos pensamentos e que sinta o sabor doce, ainda que seja amarga a frase, de escutar a tua alma. Vaguear incessantemente pelo mundo dos pensamentos, sobretudo negativos, possibilita o afastamento do relacionamento certo com a vida.

De repente escutei: 

— Sei que preciso de ir a um psicólogo, mas não quero gastar dinheiro nisso.

Olhei-te e encolhi os ombros. Para alguma coisa, existem os psicólogos — pensei — Acredito que a ajuda deles tenha causado bons resultados em muitos. Diante disso levanto uma questão: precisaremos, nós, de recorrer a um psicólogo sempre que a nossa mente nos prende na sombra? Coloquemos algumas chaves na mesa. Olha-as com coragem e honestidade. Cada chave é dona de uma porta. Cada porta esconde uma escada que desce até a um poço. Não tenhas medo. Abre uma a uma e desce ao fundo de cada um deles. Demora-te um pouco por lá e estuda cada uma das tuas qualidades que definham, enquanto clamam por ação. O dono dessa água da vida és tu. Apenas tu.

Afirmas: 

— Não sei o que fazer. Temo não conseguir o que quero fazer. Nem sei se o quero fazer. 

São muitos’ ’não seis’’. Enquanto não encontras respostas ou coragem, abre-te ao sol. Abre as janelas, sai para a rua e não temas quem vais encontrar. Faz-te presente na vida. Sorri. Tu tens um sorriso lindo. Ele vem da tua alma. Quem olhar com olhos de ver, sabe que ele vem da alma. 

— Tu és tão importante — respondi — tens tantos valores dentro de ti!

— Por vezes lembro de uma professora, que no fim de um ano escolar, entregou-me um cartão em que dizia:’’ pessoas como tu, fazem falta no mundo.’’ — disseste de olhar vago, queixo trémulo entre o crer ou não. 

— Viste? Uma chave para abrir uma porta — respondi escondendo um sorriso. Engraçado como apenas uma frase ou um gesto pode durar eternamente na nossa mente. Pode funcionar como mola para a libertação, ou não. São mais frequentes as expressões maléficas do que as que demonstram afeto pelo semelhante. Precisamos aprender a crescer independentes de frases ocasionais, embora algumas sejam colocadas na boca de alguém, pelo universo, para que percebamos a luz ao fundo do túnel. Deixa a vida correr. Não temas. O medo obriga-te a um estado de alerta que te prende na opinião dos outros. Não poderás refrear a palavra de ninguém. Antes da palavra vem o pensamento e a quem poderás impedir de pensar? Deixa-os com os pensamentos, com as palavras. São apenas deles. Concentra-te na forma mágica que é o teu ser e segue o teu caminho. Esse, sim, é apenas teu, ainda que queiras alguém ao teu lado em estrada paralela.



Fernanda R-Mesquita