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Fernanda R-Mesquita

fmaria1961@gmail.com

Lutas invisíveis- conto


A casa parecia cheirar apenas a água a ferver. Tem cheiro, a água, quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as batatas em puré. Entre os meus dedos da mão esquerda um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca, atingindo-o com duros cortes. A poesia… ah! a poesia ficara à minha espera. ’´ Que espere por melhores horas’` — pensei. Naquele momento a poesia era outra; a dos tachos, à luta com o meu cansaço. Mais um pouco, o derrotado tubérculo, seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa.

           Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes. Eles não sentiam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça, enquanto eu desabafava o meu enfado, batendo com mais força do que a necessária, com a colher de pau nos ombros do tacho que suava a bom suar. E o pobre pano da cozinha? Convertido a rodilha, experimentou a força de uma mulher aborrecida.

           Sempre gostei de cozinhar, mas nem sempre nos momentos em que os outros me querem na cozinha. A poesia esbracejava em outro universo, impaciente que eu lhe desse autorização de se manifestar. ´´ Que coisa! A poesia também precisa ser paciente! Não? `` Ela segredou-me que não. Desabafou: ’a espera aniquila-me’`.

       Agora comam que eu vou escrever — senti vontade de dizer. Contive-me, sentei-me na mesa. A poesia brincou de rio dentro do meu copo, de água e de jardim na jarra de flores. Nem me deixava mastigar. Nunca ansiei tanto que todos terminassem de comer. ’´ Ah, mas depois de todos satisfeitos, quem arruma os pratos sujos? `` — pensei levantando-me.

       Os pratos tremiam de medo nas minhas mãos. Elas quase que os afundavam no pobre do caixote do lixo, que quase se engasgava, tal era a velocidade e fúria com que o obrigava a engolir os restos de comida deixados pelos convidados. A poesia, essa coitada, já desaparecera. Ocupara o seu lugar, a desilusão, por eu mesma ter-lhe feito o funeral.

       Horas depois… muitas depois… após aquele período em que tentei deitar a cabeça na almofada e chamei, em vão, o sono. Ele decidira ficar de folga. Quatro horas a remexer-me na cama, imaginando a poesia a remexer-se no túmulo. Levantei-me e com todas as minhas forças, busquei a pá decidida a desenterrá-la. Não havia outro caminho. Quando a libertei, derramou-se em queixumes. Que poema triste ela escreveu! Mas, depois de terminado, senti-me renovada! Que doce refrigério na minha alma, poder desabafar num poema o que gostaria que os outros entendessem sem que eu falasse.

           O mundo familiar é cheio de botões secretos. Alguns nunca chegam a ser acionados. O amor enferruja, constantemente na fechadura da porta. Por vezes espreita, quase pergunta se pode entrar, mas depois, encolhe-se; lá dentro o dever ocupa toda a casa. Uns esperam sentados, iguais a convidados que não conhecem os cantos da casa, que alguém cumpra o dever e esse alguém transpira, convencido que tem de dançar a valsa dos outros e de suportar o mundo no seu dorso.


Fernanda R-Mesquita